Sobre um amigo que vai e as histórias que ficam

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Há algum tempo atrás, meu amigo Jordão me trouxe para conhecer essa maravilha de hamburger. Segundo ele, era o melhor que conhecia em SP. Na ocasião, fez questão de me apresentar o Chef e ainda pediu que ele que contasse como peregrinou por Nova York, provou mais de 40 receitas até encontrar a ideal. Eu adorei o papo. Ele, ficou visivelmente feliz com a experiência que acabava de me proporcionar.

Sempre foi assim. Falar sobre a busca por um bom hamburger e momentos #explosaodesabores da vida era um ponto que tinhamos em comum desde o primeiro papo, em 2008.

De lá pra cá, entre muito trabalho, campanhas, desafios, correria e viagens, muita conversa boa, confiança, amizade. Claro… vira e mexe, vários bons hamburgers e excelentes coxinhas – outra paixão em comum. Dois assuntos “sérios” para nós, entre boas risadas e a disputa sadia em ter na ponta da língua a dica mais quente. Nisso, ele sempre ganhava! Só me restava retribuir com minha empolgação habitual o que, pra ele, já era mais que um presente. Sujeito sério, na dele, mas generoso como poucos. Ficava feliz quando simplesmente deixava os amigos felizes.

Há alguns dias, ele se foi. Cedo demais. De repente.

Com ele, foi embora a possibilidade de novas conversas, do convivio, de novos desafios juntos.  Os hamburgers, coxinhas, viagens, lugares, novidades tecnológicas e suas histórias foram nesse tempo apenas símbolos que aliviavam o dia a dia de algumas batalhas que passamos a trilhar juntos e com frequência após um início vitorioso. No centro de tudo isso, o que mais importa: uma pessoa daquelas que não passam a tôa na vida da gente. Alguém que ajudava, ouvia sobre uma vitória qualquer e vibrava como se fosse dele. Um parceiro leal, exemplar no trato e no respeito às pessoas, um grande coração, um líder.

Voltei ao mesmo local do primeiro “hamburger incrível”. Desde o dia da partida, pensei que voltar seria uma forma de lembrar e homenagear o amigo. Até porque ele sempre perguntava se tinha passado a dica pra frente, se tinha fotografado, registrado e falado sobre… “e aí Mr.M, contou pra alguém… colocou lá a foto?”. Ao chegar, dei de cara com uma novidade do chef. E que novidade… uma beleza de hamburger!  Seria uma indicação daquelas, que me fariam finalmente ter uma dica quente pra contar a ele – e o melhor de tudo, antes! Ri sozinho, imaginando como seria.

Em meio a saudade e o nó na garganta por estar de volta ao local de tantos papos, respirei fundo e registrei o momento. Pensando que, sem dúvida, qualquer novidade daqui pra frente será motivo de lembrança, de saudade. Segui pensando nisso e resolvi escrever sobre esse grande amigo que foi. Seguro de que as histórias sempre estarão aí, vivas como nunca.

Eu sei, é simples. Mas também sei que simples assim, essa homenagem o deixaria feliz.

🙂

33 anos depois…

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Eu acho que já fiz muita coisa nessa vida. Eu já quis ser jogador de futebol como muitos garotos. Já joguei bola em campo de terra batida, eu já joguei em estádio. Já fiz teste no Corinthians, vi que não era bem isso e eu já achei que devia ter pensado em ser astronauta mesmo. Eu já fui cobrador de lotação, já fui balconista de padaria, eu já fui office-boy, eu já servi café, já fui motorista. Mas já fui assessor de ministro de estado também. Já bati um papo com o Pelé no meio da comemoração do meu aniversário de 20 anos, troquei idéia com a Xuxa sobre filhos, ouvi conselho do Serjão e o saudoso Mário Covas já me sacaneou por conta do meu ex-cabelo grande. Eu já dei trabalho na escola, já fui da galera do fundão mas eu também já fui aluno cdf. Eu já ergui a bandeira nacional na hora cívica da escola. Eu terminei os estudos no supletivo mas eu passei no vestibular de primeira. Eu já aprendi que é melhor ouvir do que falar, já aprendi que a gente não pode ter tudo que quer. Mas eu já sei também que podemos muitas coisas que queremos. Eu vi a Seleção de 82 em campo e cantei “Voa Canarinho” algumas vezes, mas  tive que ver também o Paolo Rossi acabar com a nossa festa. Já vi o esquadrão formado pelo Zico, Adílio, Andrade, o Nunes, o Tita e o Lico jogarem juntos no meu mengão. Já assisti o Flamengo ser campeão em cima do Vasco, no meio da Raça Rubro Negra no Maraca lotado. Já vi o Romário no Vasco acabar com o Flamengo. Mas também vi o Romário acabar com todo mundo em 1994 e o Brasil ser campeão do mundo. E vi o Ronaldinho também acabar com a Alemanha em 2002. Eu já fui pra Alemanha. E eu já sacaneei os alemães por causa desse jogo. Eu já subi na Estátua da Liberdade, no Cristo Redentor e já fui na Torre Eifell. Eu já segurei a onda de amigo bêbado. Eu também já fiquei bêbado e eu já acordei de ressaca. Eu já tomei caldo de sururu e comi um treco chamado suvaco de cobra lá em Pernambuco. E eu também já comi no restaurante mais antigo e famoso de Paris. Eu já comi pastel de feira em São Paulo, peroá em Vila Velha e acarajé “quente” em Salvador. Eu já briguei na rua e eu já separei briga na rua. Eu já brinquei de pique bandeirinha e de bete. Eu já comi Banda, Caramelos Nestlè, Dip N’Lik e vi o Kri virar Crunch. Eu já organizei festa junina, gincana na escola e festinha de criança. Eu já ganhei festa surpresa. Eu frequentei a Escola Dominical na Igreja Presbiteriana, eu fui batizado nas águas já adulto, eu já fui na igreja católica só pra ver qualé, eu já ganhei um concurso de quem achava versículos na bíblia mais rápido. Eu fui pra rua quando o Tancredo morreu, eu já gritei pelo impeachment de um presidente, eu já trabalhei em campanha pra Presidente. Eu comi lula frita num boteco em Santos pra comemorar a vitória do Fernando Henrique na eleição. E eu tive que engolir o Lula de verdade quando perdemos em 2002. Eu já subi no Empire State e já escutei “New York  New York” do Frank Sinatra na Brooklin Bridge. Eu vibrei muito quando vi o Piquet e o Senna serem campeões do mundo e eu chorei quando o Senna foi dessa pra melhor. Eu já vi muita gente bacana morrer, mas vi muitas figuras especiais nascerem. Eu já tomei banho de chuva várias vezes, mas já fiquei dois dias sem tomar banho de água doce. Eu já plantei uma árvore, eu já tive filhos, já me apaixonei,  já tive dor de cotovelo, já tomei fora da Juliana e depois ela resolveu casar comigo como manda o figurino. Eu assisti o parto das minhas duas filhas, eu já ensinei uma delas a andar de bicicleta sem rodinha e a outra a comer a primeira comidinha. Eu já chorei quando passaram mertiolate no meu machucado mas tive que passar mertiolate no machucado da minha filha enquanto ela chorava. Eu vi vários tipos de Coca-Cola serem inventadas e eu continuo tomando a mesma Coca-Cola original. Eu já peguei 45 saquinhos de Cosme Damião em um só dia. Eu já tomei bronca de chefe e já dei bronca como chefe. Já corri atrás de emprego, já consegui bons empregos, já fui dono do meu próprio negócio, já desisiti de ser dono do meu próprio negócio também. Eu já fui pra Disney um monte de vezes e eu já enchi o saco dos amigos pra irem pra Disney também. Eu já tive furúnculo, eu já roubei manga do vizinho, eu já tive piolho, eu já fugi de cachorro brabo, já joguei muita bola descalço na rua, eu já soltei pipa com cerol, eu joguei bolinha de gude. Eu nunca gostei de aparecer mas já precisei aparecer na TV, no rádio, no jornal, em revistas e na Internet. Eu já usei máquina de escrever, eu vi a Internet nascer antes de muita gente e eu comecei a trabalhar com Internet antes de muita gente. Eu já comi cachorro quente em Nova York e lá na pracinha do Guará achando bom do mesmo jeito. Eu assisti Piratas do Espaço, Chips, estréia de filme dos Trapalhões, eu já morri de medo com a brincadeira do copo e com Poltergeist- o Fenômeno. Eu já fui na Água Mineral, na piscina com ondas do Parque da Cidade, no Clube Primavera de Taguatinga e eu já passeei no Central Park. Eu já comi o pastel da Viçosa incontáveis vezes e muitos anos depois eu conheci o cara que fundou a Viçosa. Eu já perdi e já ganhei no par ou ímpar. Eu já trouxe Pizza Hut dentro do avião de São Paulo e eu já economizei um bom tempo pra ir comer no rodízio do Primo Piato. Eu sempre fui fã de coxinha. Eu já andei de bug nas dunas de Natal, eu já fiz fogueira com amigos na rua, eu já acampei, eu já dormi ao relento, eu já vendi din-din na porta de escola, eu já lavei carro pra ganhar uns trocados. Eu já fiz guerra de bolo, já vi o sol nascer e já vi o sol se pôr. Eu já fui nas Torres Gêmeas e também vi uns babacas derrubarem elas. Já vi o Papa de perto e depois vi ele morrer e outro ser escolhido. Eu já assisti show de rock e axé, eu já surfei, já mergulhei no mar, já subi em árvore e brinquei de pique-esconde. Eu já me perdi em Miami, em Goiânia e no Rio de Janeiro. Eu já fiz compras na comercial norte de Taguatinga, no calçadão de Madureira e também na Champs-Élysées. Eu já fiz muitos amigos por aqui e já fiz muitos que moram mundo afora. Eu já passei o maior calor da minha vida em Cuiabá e já quase congelei em Dresden na Alemanha. Eu já andei de trem bala, de bondinho, de jangada e de metrô. Eu aprendi a dirigir num Fusca, eu já dirigi um ônibus e uma Kombi. Eu já bati um carro e já não achei meu carro no lugar onde ele deveria estar. Eu já andei a cavalo, eu já tomei coice de cavalo, eu já vi tubarão de perto, já limpei galinheiro, já encerei chão, já plantei tomate. Eu já vi neve. Eu sempre me perguntei porque meu nome é Moriael, eu já tive que responder mil vezes que não sei de onde veio esse nome até que um dia encontrei um cara na rua que, do nada, me contou a história do meu nome todinha. Eu já andei de montanha-russa no carrinho da frente, eu já caí de bicicleta, eu já andei de kart. Eu fiquei fã do Legião Urbana, eu já cantei Faroste Caboclo centenas de vezes e eu já encontrei o Renato Russo. Eu também já dei uma topada com o Zidane na rua e eu já vi o Zidane não ser topado por ninguém e destruir o Brasil na Copa. Eu fui no Louvre, eu já fui no Museu de História Natural de NY, no Memorial JK, eu já nadei com os peixes em Porto de Galinhas, já andei de jet ski e já me senti como uma batata cozida nas piscinas de Caldas Novas. Eu já passei 3 horas seguidas numa Apple Store. Eu já li a revista MAD escondido e colecionei a Placar por vários anos. Eu escapei do Exército, eu já tive cabelo grande, eu já usei brinco em uma orelha, eu já fui reprovado na escola. Eu já aprendi a cozinhar, eu já deixei o arroz queimar, eu já fiz vários churrascos, já fiz comida chinesa, mexicana, tex-mex, italiana e vários mexidões. Eu já provei sarapatel, buchada de bode, scargot e caviar. Eu já tomei Chapinha e já tomei vinho caro. Eu já escutei música brega de noite, eu já escutei jazz de qualidade, eu já vi ensaio de escola de samba. Eu já fui aplaudido e eu já paguei mico. Eu já contei piada sem graça e piada engraçada. Eu já desfilei no 7 de setembro, eu já fui campeão jogando vôlei e futebol, eu já lutei judô. Eu já dormi no ônibus e perdi a parada, eu já tive dor de barriga no ônibus, eu já passei mal de tanto rir. Eu já pensei que nunca ia pra faculdade e anos depois eu fui pra melhor festa da minha vida que foi justamente a minha formatura na faculdade. Eu também já ouvi muitas vezes que era quase impossível trabalhar com o que se gosta. Eu não acreditei, dei um jeito de trabalhar todo dia com o que me faz feliz e eu ainda recebo por isso. Eu sempre achei que uma boa risada e um bom bate-papo valem mais que perder tempo discutindo seja lá o que for. Eu já li muitos livros, já escutei muita música, já escutei muitas histórias do meu avô, eu aprendi a jogar xadrez com meu outro avô. Eu já fui figurante de filme brasileiro, eu já brinquei dentro de bueiro, eu já nadei em rio, eu já pesquei no mar de noite. Eu já me vesti de super-homem, eu já pulei de cima da casa pensando que era o super-homem, eu já me vesti de papai noel pra minha filha. Eu nunca tive barba e eu sou o criador da língua do “ênet’s”. Eu já contei várias histórias pra Malu dormir, já ensinei ela a fazer côco no vaso, eu já fiz ela e a Duda dormirem no meu colo. Eu já troquei fraldas, eu já chorei na apresentação do dia dos pais. Eu descobri que a melhor coisa que pode existir na vida de um homem é ser pai. Quando a Duda nasceu eu descobri que essa felicidade podia dobrar. Eu sempre pensei o tempo todo sem parar, eu nunca perdi a mania de achar que as coisas sempre podem melhorar, eu nunca aprendi que o ótimo é o inimigo do bom. Eu sempre preferi o ganha-ganha do que o perde-perde numa negociação mas eu nunca aprendi que ao longo da vida as vezes é preciso dizer mais nãos. Eu sempre tive certeza que a verdade é melhor que a mentira. Eu também sempre achei que Deus foi mais legal comigo do que eu merecia. Mas eu também sempre me senti bem próximo Dele e concluí que Ele não se importava muito com alguns vacilos de vez em quando. E eu acho que é por isso que Ele me deixou chegar até aqui, aos 33 anos de idade. Porque se eu acho que  já vivi muita coisa legal, Ele sabe que ainda tenho muita coisa legal pra viver. Ele também sabe que eu nunca vou esquecer de valorizar e agradecer por cada detalhe daquilo que foi preparado pra mim. 

 

Obrigado, Senhor.